Anjos do Universo de Einar Már Gudmundsson (Resenha)

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O autor soube retratar de forma leve um ambiente tão hostil e solitário que é um hospital psiquiátrico e o constante convívio com a morte e o descaso. Apesar de confuso em alguns momentos, esse livro é uma obra que merece ser lida.

Sinopse

 

Ganhador do Prêmio Nórdico de Literatura, concedido pela Academia Sueca, Einar Már Gudmundsson é considerado um dos maiores escritores da Islândia. Radical e inovador, Einar explora a tradição da literatura de seu país, conhecida pelas sagas escandinavas, incluindo elementos estrangeiros e pops em seus romances. Anjos do universo traz um impressionante retrato da loucura de Páll Örn.

 

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Resenha

A primeira vista acreditei que esse livro teria uma outra abordagem para o tema apresentado. Tema esse que me desperta um certo fascínio. A mente humana com suas nuances e mistérios sempre me chamou a atenção e gosto quando o tema “loucura” está presente na literatura. Não sei por qual motivo acreditei que veria a história contada de uma forma diferente daquela que o livro apresenta. Mas gostei da forma como o tema foi descrito.

O que mais me chamou a atenção em Anjos do Universo foi saber que o protagonista sofria de esquizofrenia e de imediato  quis conhecer mais de Páll, nosso protagonista narrador. A capa do livro não tem nada a ver com a história, ou tem, se você olhar pelo ponto de vista de alguém que convive com alucinações constantemente. Posso dizer o mesmo do título…

Páll é um homem islandês que sofre de esquizofrenia. Como citei acima, ele é nosso narrador, pois o livro é narrado em primeira pessoa e na visão dele. Assim como Brás Cubas (Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis), nosso narrador é morto e conta toda a sua história desde o seu nascimento até o dia de sua morte.

Aparentemente Páll teve uma infância normal, sem maiores problemas e só em sua adolescência que sintomas da esquizofrenia começaram a aparecer. Primeiro filho de um casal, com muitos planos e sonhos, Palli cresceu com uma boa condição de vida e foi um menino inteligente e ligado às artes. Cresceu com poucos amigos e como todo bom nerd, taxado como o “esquisito” da turma… Estamos falando do ano de 1954.

Sua juventude já não foi assim tão fácil. Páll conheceu o amor, as decepções que isso pode trazer e os sintomas de sua doença quando começaram a aparecer, trouxe junto grandes problemas. E assim seguimos conhecendo sua vida, amigos, ilusões, dores e decepções até o seu internamento no hospital psiquiátrico Kleppur.

A loucura está a espreita…

A narrativa é leve, por mais e aborde temas pesados como a loucura, o suicídio, vícios, descaso, dentre outras coisas. Com frases curtas e ideias rápidas, o livro segue e ao mesmo tempo não segue uma cronologia. Estamos diante de uma mente doente, cheia de alucinações, então o nosso narrador nos conta momentos marcantes e que ele vai se lembrando no decorrer de sua narrativa, deixando o leitor um pouco perdido nesse percurso.

A narração não segue uma lógica e achei isso fascinante pois fez eu me sentir dentro da mente de um esquizofrênico. O narrador não é confiável e a todo momento fiquei me perguntando se aquilo realmente era real ou imaginação dele. Outra coisa interessante é que o livro está repleto de citações da cultura pop da época como David Bowie, os Beatles, acontecimentos históricos, bandas e muitos fatos do folclore e mitologia islandesas.

O autor aborda temas sociais também. Principalmente o descaso dos pacientes internados em hospitais psiquiátricos e todos aqueles que são marginalizados pela sociedade por serem considerados um problema para as famílias e para o próprio estado. Posso considerar o hospital Kleppur como um personagem nesse livro. Ele tem quase que vida própria e com ele o autor demonstrou como essas pessoas são tratadas… muitos são jogados dentro de manicômios e vivem situações tão deploráveis e de abandono que a única solução que encontram é a morte.

Anjos do Universo é um livro leve, mas que nos leva a pensar em nossas atitudes com essas pessoas. Loucura é uma doença que nem sempre tem cura, mas isso é motivo para abandonar essas pessoas? Estar louco implica em não ter sentimentos? Vamos pensar nisso…

Resumindo, estamos diante de uma história triste de uma pessoa que foi sendo engolido aos poucos pela doença até restar apenas a escuridão de um túmulo frio.

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Classificação
Narrativa
Personagens
Enredo
Capa
3.8 Ficção

O autor soube retratar de forma leve um ambiente tão hostil e solitário que é um hospital psiquiátrico e o constante convívio com a morte e o descaso. Apesar de confuso em alguns momentos, esse livro é uma obra que merece ser lida.

About The Author

Nerd, Geek, viciada em livros, youtuber, aspirante a jornalista, apaixonada por animais e nas horas vagas tenta ser engraçadinha.