Conto | Arrebentação

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De Thaisa Lima

O corpo esguio e recém saído da adolescência, deslizava com maestria sobre a crista da onda. Ele carregava um sorriso satisfeito no rosto, apesar do esforço para se manter firme até concluir a manobra. Moura podia fazer aquilo de olhos fechados, a prancha era uma extensão do seu corpo. Puxou o ar com dificuldade ao sentir um repuxo, indicando que já estava próximo da arrebentação, os músculos gritando de cansaço. Aquela era uma onda perfeita.

O melhor lugar para surfar em dias chuvosos como aquele é a praia de Cruz das Almas. Os anos percorrendo as orlas de Maceió o fizeram conhecer bem as particularidades de cada lugar e  aquele dia de mar gordo rendeu uma manhã cheia de adrenalina. 

Em cima de uma prancha ele era livre, amava sentir o vento forte contra o rosto. Se pudesse, teria deixado há muito tempo a escola para se dedicar ao surf profissional, mas seus pais queriam um diploma e o forçaram a estudar a vida toda. Passou a língua nos lábios e guardou na memória o gosto salgado dos respingos de água que pingava de sua barba rala. Passaria um tempo longe de Maceió, do mar. Trocaria aquela paisagem relaxante por um odioso oceano de concreto. 

A onda quebrou e Moura caiu junto com ela, tomando um caldo bem ao lado dos boias. Eles pareciam leões marinhos, deitados sobre as pranchas com as pernas arreganhadas, tomando sol. A correnteza puxou com força, o fazendo afundar por causa da corda de segurança. Engoliu um pouco de água enquanto tentava pegar a prancha e subiu com dificuldade, tossindo, sentindo a garganta arder.

― Respira, Brô! ― Falou sorrindo um dos surfistas.

― Véi, hoje você estava inspirado. ― O segundo ergueu o polegar para Moura, em sinal de aprovação.

― Uma despedida adequada. ― Moura tossiu novamente e se jogou sobre a prancha, se juntando ao grupo de leões marinhos. Inclinando o pescoço para trás, soltou o cabelo e balançou a cabeça, espirrando água para todos os lados. ― Vou passar um bom tempo longe desse marzão. ― Prendeu novamente os cabelos parafinados em um coque bagunçado. 

― Oxe! E tu vai pra onde, véi? ― Gritou um terceiro. Todos olharam para o adolescente com a cara cheia de espinhas e o segundo surfista deu um tapa em sua nuca, o fazendo se encolher. 

― Tô indo para São Paulo.

Moura despediu-se dos amigos e seguiu em direção à praia. Não estava com pressa em voltar para casa. Aquilo não era o que ele queria.  As poucas vezes que saiu de Maceió foram em viagens curtas, em férias com a família. Nunca teve a pretensão de estudar fora, muito menos de fazer uma faculdade de direito e pior ainda na USP. Ele preferia morrer a isso. Caminhou lentamente pela areia fofa, os grãos fazendo cócegas em seus dedos, retardando os minutos tanto quanto fosse possível. Olhou para o lado direito e viu um casal se beijando ao som de Limão com Mel. O toque de “Toma conta de mim” o fez parar. Lembranças dela e do dia em que se conheceram, invadiram sua mente. Frustrado, deitou a prancha na areia e atirou seu corpo ao lado. Embalado pela voz melodiosa de Raphael Marrone, Moura foi transportado para o estacionamento do Parque Shopping Maceió, na noite do show de Forró das Antigas. 

A maldita viagem lhe tiraria mais uma coisa: a ninfa loira. Já se passaram dois meses desde o momento em que a viu, linda, naquela mini saia preta. Dois meses em que aqueles olhos acinzentados como um mar tempestuoso o enlouqueceram. Dois meses desde que fez aquilo com ela. Dois meses tentando ter aquelas coxas grossas envolvendo sua cintura novamente. Dois meses esperando pela notícia. Nada. 

Ela é diferente das outras. Alê, a deusa de cabelos raspados, o ignora desde então. Não atende suas ligações e responde monossilabicamente suas mensagens no whatsapp. Moura não entende. Ele enjoa fácil das outras garotas porque não largam do seu pé. Alê foi a única que não quis sair novamente com ele. Por sorte,  furou a camisinha naquele dia e desde então torce para seu plano dar certo. O garoto sabe que é errado o que fez, mas não se importa. Ter um filho é seu maior desejo. O tempo está passando e suas esperanças estão acabando. Se seu plano de engravidá-la tivesse realmente dado certo, ela já teria procurado por ele, não é? Estava decepcionado consigo mesmo. Não passou por sua cabeça que ela pudesse usar outros métodos anticonceptivos. 

Não adianta lamentar. Essa possível gravidez seria a desculpa perfeita para não fazer faculdade. Já estava tudo esquematizado em sua cabeça. Anunciaria aos pais que assumiria a gravidez, arrumaria um trabalho e passaria o resto da vida surfando e cuidando do filho. Já se via ensinando o moleque a dar seus primeiros passinhos em cima de uma prancha. Mas isso era apenas um sonho distante agora. 

― Merda! ― Levantou de cabeça baixa, derrotado, e foi para casa caminhando.

Não morava longe dali, levou apenas 20 minutos, caminhando devagar, observando a movimentada avenida. Os carros passam lentamente, presos em um engarrafamento típico das 10h da manhã. A cacofonia de buzinas misturando-se com a bagunça de seus pensamentos. Precisava arrumar as malas. Pegaria um avião às 20h e ainda precisava resolver outras coisas. Não queria ir. Sentia-se um boi indo para o matadouro. Distraído, não viu o rosto das pessoas que o cumprimentaram, apenas acenou com a mão desocupada e seguiu caminhando cabisbaixo. Ao abrir a porta do apartamento foi recepcionado por uma mãe enfurecida.

― Antônio Pedro Moura! Isso é hora de chegar em casa? ― Ela o olhava com os olhos semicerrados e as mãos na cintura, batendo um dos pés de forma ritmada no chão. ― Não pense que só porque você já é desse tamanho que não vai levar umas chineladas! 

― Oxe, mainha! ― Moura  se abaixou, desviando da chinela que passou voando por sua cabeça. A Havaiana bateu na parede e caiu emborcada no chão. ― Já estou indo tomar banho, velha! ― Sorriu, sabendo que aquele apelido a deixaria ainda mais irritada.

― Velha é a sua vó! ― Dona Irene correu para desvirar a chinela. Ela era cheia de superstições e deixar a chinela assim era sinal de mau agouro. ― A porcaria do seu telefone não para de tocar. Porque deixou a merda da porta do seu quarto trancada?

Nem se preocupou em responder e deixando a mãe falando sozinha, fechou a porta atrás de si. Correu até a mesinha de cabeceira e pegou o celular. Seu coração quase parou ao ver 15 chamadas perdidas de Alê. 

― Será que é o que estou pensando? ― Falou para si mesmo enquanto desbloqueia a tela, já apertando o botão de retornar a chamada. O coração acelerado, batendo forte contra o peito, dificultando a respiração. Esperou muito tempo por essa notícia. 

― Moura, precisamos conversar. ― Alê atendeu no segundo toque sem nem deixar ele falar. ― E tem que ser agora.

― Certo. ― A voz quase não saiu tamanha a euforia. Tinha certeza de que Alê estava grávida. Pigarreou antes de continuar a falar. ― Onde?

― Estou no Shopping Parque. Espero você em frente à Burger King.  ― Desligou sem esperar uma resposta.

Moura correu para o banheiro e tomou uma chuveirada rápida. Pegou a chave do carro e saiu correndo pela sala, sua mãe gritando desesperadamente por seu nome. Sem se virar,  disse apenas que voltaria logo e fechou a porta. Levou menos de 15 minutos para chegar ao local combinado.

― Alê. Oi. Eu… 

― É o seguinte ― ela o interrompeu. ― não tenho muito tempo sobrando, então vou direto ao ponto. ― Virou a cabeça um pouco de lado e coçou a nuca, impaciente. ― Estou grávida. 

Moura ficou sem reação. Esperou por tanto tempo para ouvir essas palavras que seu cérebro demorou segundos para processá-las. Permaneceu parado, os olhos arregalados, abrindo e fechando a boca. Alê soltou um sorrisinho e balançou a cabeça de um lado para o outro.

― Respira, garoto! ― Ela bebeu um gole de suco de laranja. Recostando-se na cadeira, cruzou os braços em frente aos seios. ― Se acalme. Não precisa se preocupar com nada. Na verdade, já tem uma semana que eu soube sobre essa gravidez. Eu nem ia te contar, mas acho…

― Espera! ― Ele levantou uma mão impedindo-a de continuar a falar e respirou fundo. ― Você não ia me contar? Por que? Eu sou o pai dessa criança!

― Sua parte foi apenas contribuir com o esperma, garoto. ― Ela o olhou com desdém. Um sorrisinho sarcástico no canto dos lábios. ― Isso não faz de você um pai. ― Deu mais um gole no suco o olhando enquanto chupava o canudo. Alguns segundos depois, continuou a falar, ignorando o desespero no olhar de Moura.  ― Engravidar agora não estava nos meus planos, só tenho 28 anos e uma carreira pela frente, mas já que aconteceu, criarei meu filho sozinha.

― De jeito nenhum! ― Ele levantou em um salto, espalmando as mãos sobre a mesa. ― Esse filho também é meu e tenho todo o direito de ajudar na criação.

― Isso não está em discussão aqui, Moura. Eu já decidi. Vou criar meu filho sozinha.  ― Levantou e pegou a bandeja. Começou a caminhar em direção à lixeira. 

― Você não pode fazer isso comigo! ― Moura deu dois passos largos, parando ao seu lado. Segurou o braço de Alê com força. Ela se soltou de forma ríspida, devolvendo um olhar mortífero em resposta e continuou andando.  

Aos poucos a praça de alimentação enchia de pessoas famintas. Os cheiros misturados dos alimentos, vindos de todos os restaurantes, provocam náuseas e ele sente um bolo se formando em sua garganta. Engole em seco, tentando manter no estômago o conteúdo do café da manhã. Aquele cenário não estava certo. Ele nunca imaginou aquela possibilidade. 

― Eu quero te ajudar a criar nosso filho. ― Falou com dificuldade.

― Eu já disse que esse filho é só meu! Achei que você ficaria feliz em saber que não precisa se responsabilizar com nada. ― Sorriu, gentil demais, passando a mão no rosto de Moura. ―  Você é só um garoto que não quer nada da vida além de surfar! ― Ela jogou os restos na lixeira e deixou a bandeja na parte de cima, junto das outras. O momento de trégua havia terminado. ― Estou indo embora e por favor, não me procure mais. Se você me seguir, vou te denunciar para a polícia.

Alê saiu rebolando entre as mesas deixando Moura petrificado ao lado do palhaço comedor de restos. Ele viu seu grande sonho escorrendo por seus dedos. Acabou de tomar o pior caldo de sua vida e estava se afogando. Ele queria ser pai. Ele queria ter um filho com Alê. Furou a camisinha justamente para isso. Acreditou que aquela mulher dos cabelos raspados de um lado e na altura dos ombros no outro, fosse aceitar sua ajuda. Ele havia planejado toda sua vida, iria trabalhar, criar a criança, quem sabe até se casar… Mas ela mudou tudo. De uma coisa ele tinha certeza, não faria mais porcaria de faculdade nenhuma. Agora ele tinha um motivo para enfrentar os pais e decidir o que fazer de seu futuro.

Uma mulher trajando um uniforme marrom e touca no cabelo tocou em seu ombro, despertando o jovem do torpor e ele saiu correndo, derrubando algumas pessoas desavisadas. Sem saber o que fazer, dirigiu pela orla sem destino até parar em um barzinho. Ignorou todas as chamadas dos pais. Pediu ao garçom uma garrafa de uísque. Encheu o copo e bebeu todo o líquido de uma vez. Aquilo desceu queimando em sua garganta, mas, ignorou. Tomou novamente outro copo cheio em um único gole e já não sentiu mais o incômodo. O garçom se aproximou, perguntando se ele queria algo para comer, mas Moura o dispensou só com uma mão. Se abrisse a boca para falar qualquer palavra que fosse, começaria a chorar de frustração e ele não queria passar essa vergonha.  O celular continuou a tocar, irritando-o. Ele desligou o aparelho e continuou a beber. Passou a tarde entre um copo e outro, derrubando sozinho duas garrafas de Red Label

A mente entorpecida não o impediu de ter uma ideia. Iria confrontar Alê. Sabia onde ela trabalhava. Levantou-se trôpego, mal conseguindo se manter em pé e pagou a conta com dificuldade. O dono do bar se ofereceu para chamar um Uber, mas o rapaz recusou, saindo cambaleante em direção ao carro. Ele tropeçou ao tentar erguer o pé quando passou pelo batente da porta, perdeu o equilíbrio e despencou nos braços de um senhor desavisado que caminhava no calçadão. Moura pediu desculpas, numa fala enrolada pela língua pesada e o senhor o ajudou a ficar de pé novamente. Chegou ao carro com dificuldade, derrubou a chave umas cinco vezes antes de conseguir encaixar na ignição e saiu cantando pneu, ultrapassando todos os limites de velocidade escritos nas placas ao longo da orla. O carro em  zig zag na pista, deixa os outros motoristas putos com tamanha imprudência. Ele ignorou todos os sinais vermelhos. Queria chegar depressa ao escritório dela. 

Alê não se sentia bem. A conversa com Moura não foi como esperava. Tinha certeza de que ele ficaria feliz quando ela o liberasse de todas as responsabilidades com o bebê. Andava mais irritada do que o normal, desde que começaram os malditos enjoos. Seu estômago queimava, um incômodo. Não deveria ter tomado aquele suco de laranja. O pior de tudo era o sono constante e aqueles desmaios. Era uma arquiteta conceituada e o lado bom de ser chefe é que poderia se dar ao luxo de sair mais cedo do trabalho. Pegou sua bolsa e, despedindo-se dos funcionários, saiu. Decidiu tomar uma água de coco antes de ir para casa, quem sabe isso melhoraria seu estômago. Precisava apenas atravessar a rua e como a chuva deu uma trégua, poderia apreciar o pôr do sol, sentada no calçadão enquanto bebia. 

Alê caminhou até a faixa de pedestres e esperou o sinal ficar verde para ela. Estava sozinha. Assim que a luz verde apareceu, apressou-se em atravessar, sem esperar os carros pararem. No meio da pista, sua visão escureceu. As pernas tremiam e não conseguia respirar. Ela ia desmaiar ali, no meio de uma avenida movimentada. Aos poucos os barulhos foram sumindo. Buzinas se calaram. Não conseguia mais ouvir as ondas nem os gritos das pessoas. Estava perdendo os sentidos. 

Tudo aconteceu muito rápido. Tão rápido que ninguém conseguiu impedir a tragédia. Enquanto o corpo de Alê caia, Moura se aproximava com o carro em alta velocidade. 

Se aproximando. Aproximando. Aproxi…

A batida forte contra o corpo magro da mulher a arremessou vários metros para o alto, despencando em seguida. Seus membros retorcidos em um ângulo impossível de ser explicado pela física, jazia inerte no chão. O Audi de Moura rodopiou na pista, chocando-se contra um poste que partiu no meio e caiu sobre o teto do carro, amassando-o. O corpo ensanguentado, preso entre as ferragens.  Um verdadeiro pandemônio se formou. Curiosos surgiram de todos os lados e se amontoaram ao redor do corpo de Alê. Alguém chamou uma ambulância. Outro ligou para a polícia.

Ao longe, o barulho de sirenes se aproximando. Todos os planos foram frustrados e seus destinos, entrelaçados. 

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About The Author

Escritora, Geek, amante dos livros, youtuber, apaixonada por animais e não larga uma xícara de café.