Conto | Um pulo no abismo

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Por Thaisa Lima

Um pulo no abismo

Ele caminhava, perdido em seus pensamentos, sem se preocupar com a direção tomada. Seus pés o levaram, em passos automáticos, por um caminho conhecido e parou diante do lugar evitado por tantos anos. O letreiro chamativo de luzes neon, ainda era o mesmo e continuava com as três letras apagadas. Alguém precisava mandar trocar aquelas lâmpadas queimadas. O cheiro dos destilados exalando pelas frestas, bem suave, misturados ao odor de vômito e mijo, lhe davam uma sensação de conforto. Ele sabia que não deveria entrar por aquela porta, mas este seria o único lugar capaz de fazê-lo esquecer. Um ano se passou e a dor ainda doía. Parado diante da madeira de duas folhas, passou a mão por cima do bolso da calça, sentindo o contorno dos objetos. Foi o incentivo que precisava para entrar. Ele fechou os olhos, respirando fundo e deu um passo para dentro do abismo.

Ao entrar, suas narinas dilataram, invadidas pelo aroma inebriante. Seu corpo tremia de excitação e já podia sentir o gosto do líquido em sua boca. Caminhou até o balcão, salivando. Ainda estava cedo e naquele horário só os bêbados estavam ali, largados nas mesas, tendo como única companhia um copo cheio. Notou que o velho tique de esfregar a boca com as costas das mãos voltou, mas não se importou com isso. Procurou um canto na ponta do balcão e sentou, longe o suficiente para ficar isolado com sua dor; observou por um longo período as garrafas nas prateleiras enquanto esfregava o dedo vazio, antes ocupado por uma aliança. Outro velho hábito. A boca cheia de saliva o incomodava, desesperado por um gole. Ele passou a mão no bolso novamente, sentindo os objetos e retirou-os. O primeiro, um disco redondo com o número 8 pintado, sempre andava em seu bolso; um lembrete nos momentos de crise. Não foi o suficiente para impedi-lo naquele dia. Largou em cima do balcão a medalha que ganhou ao completar 8 anos sem beber, em sua festa no AA, e levantou um dedo, chamando o atendente. O outro objeto, uma pequena régua escolar quebrada, manteve nas mãos, alisando-a como se fosse um bichinho de estimação. Não pode impedir as primeiras lágrimas de caírem por suas bochechas magras.

― O que deseja beber, senhor?

O atendente sorridente, ao ver a ficha de 8 anos em cima do balcão, franziu a testa e o sorriso morreu em seu rosto.

― O senhor tem certeza que quer fazer isso? Pense bem, são 8 anos cara…

Sem levantar a cabeça, com os olhos fixos na régua, fez um pequeno gesto afirmativo.

― Uísque duplo.

Sua voz embargada era irreconhecível.

― Cara… você tem certeza de que não é melhor ligar para o seu padrinho? Eu acho…

Ele olhou enfurecido para o “conselheiro” e cerrando o punho, esmurrou o balcão, assustando o pobre rapaz. O homem sabia que não deveria dar o primeiro gole, mas ele precisava daquilo. Precisava da coragem que só a bebida era capaz de fornecer. O funcionário, com crise de consciência, apenas ergueu as mãos, rendido, e encheu o copo, atendendo o pedido do cliente, com pesar.

Com a mão esquerda, segurou a régua com força. Os nós dos dedos ficaram brancos pela força empregada. Segurou o copo com a outra mão e demorou sentindo o cheiro forte do líquido âmbar; aproximou o vidro da boca, sem controlar o tremor cada vez maior, deixou cair um pouco em cima do balcão. Deu o primeiro gole. Fechou os olhos, extasiado com a sensação em sua garganta. Tomou o resto do conteúdo de uma vez e pediu mais uma dose. Olhou para a régua e teve um vislumbre do rosto angelical do antigo dono. Hoje é aniversário de 1 ano da morte de seu único filho. Ele bebeu até sentir seu corpo entorpecido.

Saiu cambaleante do bar e caminhou até o baloeiro. Comprou um bilhete para o próximo passeio e pagou a mais, pois queria ir sozinho com o condutor do balão. Ele era um covarde e não queria que outras pessoas vissem o seu pavor quando estivesse lá no alto. Em outras circunstâncias,  jamais entraria em um aeróstato, mas precisava fazer aquilo por seu filho. O trajeto passaria bem em frente à torre do castelo velho que seu pequeno adorava brincar. E por ironia do destino, a torre responsável pela decisão de sua família viver na Escócia, virou o túmulo do seu primogênito. Aquela torre em ruínas, foi palco da maior tragédia de sua vida e hoje seria a responsável por acabar com sua dor.

Chegou a hora. Ele andou, trôpego, e entrou no cesto de vime, sentando-se encostado em uma das paredes. O condutor, desconfiado, o olhava enquanto colocava o monstro gigante para decolar. O balão desencostou do chão e começou a subir. O homem foi tomado pelo pânico e apertou a régua com força, quase quebrando-a. Ela era seu apoio, um lembrete do porquê estar fazendo aquilo. Precisava enfrentar seus medos. Fechou os olhos, tentando controlar a respiração irregular. Sentia o estômago revirando. Estava a ponto de vomitar.

― Tudo bem por aí, companheiro? ― Disse o piloto.

― Tudo. ― Respirou fundo antes de continuar a falar. ― Só estou um pouco enjoado.

O homem sorriu, sem acreditar muito no que aquele senhor maluco dizia. O piloto já tinha visto muitas pessoas com medo de altura andando em seu balão e não entendia porque elas insistiam em fazer algo do tipo.

― Me avisa quando avistar o castelo, por favor. ― Falou o bêbado.

Alguns minutos após a breve conversa, o piloto informou que estavam próximos do castelo. Ele se forçou a abrir os olhos e tentou ajoelhar, sem muito sucesso. Despencando para o lado, deixou a régua cair de suas mãos. O movimento fez o cesto chacoalhar e foi tomado novamente pelo pavor. 

― Calma aí amigo! Respira.

A torre se aproximava. Conseguiu controlar a respiração, pegou a régua e depois de algumas tentativas, apoiou as mãos trêmulas nas bordas do cesto, ficando em pé. Lá estava ela. Só mais uns poucos metros e ficariam frente a frente. Seu coração acelerou e manteve os olhos fixos em seu objetivo. Sua mente foi tomada por lembranças. Ele voltou para o pior dia de sua vida, o dia da tragédia, o dia em que viu seu único filho desabar de uma altura de 20 metros. 

O balão flutuava. Estavam bem em frente ao local onde tudo aconteceu. Lá estava ele, o seu pequeno filho, acenando para o pai, com um sorriso luminoso, no buraco deixado após o desabamento. O homem chorava descontroladamente, sorrindo e acenando.

― Meu filho, você esqueceu a sua régua…

Esticando o braço, o bêbado pulou, jogando-se de cabeça no abismo azul, deixando para trás um ano de dor e um piloto atônito, aos berros. Finalmente sentiu paz.                           

Imagem de Makalu por Pixabay

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About The Author

Escritora, Geek, amante dos livros, youtuber, apaixonada por animais e não larga uma xícara de café.