Crônica | Não deixem o morto sozinho…

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Quando eu falo para as pessoas que sou uma criatura de hábitos estranhos, elas olham pra essa minha “carinha de anjo” e não acreditam que eu esteja realmente falando a verdade. Acham que minhas estranhezas se resumem a comer manga verde com sal ou algo parecido. A coisa muda de figura quando passam a me conhecer melhor.

Se tem uma coisa que não gosto de fazer é ver um defunto desacompanhado e deixá-lo sozinho. Acho tão triste e desumano largar a pessoa que passará a eternidade sabe-se lá onde, sozinha, nos seus últimos momentos entre os vivos. Não precisa me olhar com essas sobrancelhas arqueadas. Mal comecei a te contar minhas manias…  Não, eu não saio por aí em busca de defuntos solitários me oferecendo pra fazer companhia a eles! Calma que vou te explicar e para que você entenda essa minha esquisitice, vou falar sobre o dia do velório de minha avó.

Antes de mais nada eu preciso dizer que detesto ir a enterros. É, isso soa controverso, eu sei. Vou pouquíssimo a funerais (graças a Deus!), mas quando vou, sempre procuro por finados desconhecidos e deixo um último adeus. É macabro?

No dia em que minha avó faleceu, a levamos para o local oferecido pelo plano funerário onde ocorrem as exéquias. Um imóvel relativamente grande, com uma lanchonete na entrada, banheiros, local para fazer café e de frente às quatro salas onde os defuntos são velados, uns bancos não muito confortáveis. No final desse “corredor” uma porta que permanecia fechada.

Minha avó estava na primeira sala. Um cubículo que mal cabia o caixão e dez cadeiras de plástico, daquelas brancas, cinco de cada lado. Fazia um calor infernal e o pequeno ventilador barulhento não dava conta, então ficamos sentados no banco duro de frente à porta do “Salão 1A”. Faltou criatividade para nomear as saletas…

Minha preocupação era não deixar o corpo inerte de minha avó sozinho, então fiquei próxima, num lugar onde havia ventilação.  Na sala ao lado, outro defunto era velado, mas como o recinto estava abarrotado (pra minha tristeza), só estiquei o pescoço e dei adeus ao morto de longe. Tudo indicava que só haviam aqueles dois corpos mesmo, então nem dei muita atenção para as outras salas.

Família e amigos foram chegando para se despedir. Pessoas entrando e saindo na “1A”. O calor aumentava… Saí de perto do pequeno aglomerado resmungando que não estava em um cemitério e sentei de frente para a “2B”. Tudo o que eu queria no momento era passear entre as catacumbas e curtir o silêncio sepulcral… uma outra mania minha que merece uma crônica à parte.

Observei meu pai conversando com meu avô adotivo. Os amigos de vovó confraternizando. Meu tio, aéreo…

Alguma coisa chamou minha atenção e olhei para frente. Foi aí que eu vi algo que fez meu coração se despedaçar (e se alegrar).

Havia um caixão bem no meio da “3C”. So-zi-nho.

Levantei mais que depressa. Olhei pra direita. Ninguém. Pra esquerda. Ninguém. Procurei um parente daquele ilustre desconhecido dentro da sala. Nada. Esperei um pouco pra ver se alguém tinha ido ao banheiro. Nada. Foi me dando uma aflição, uma agonia e quando dei por mim já estava caminhando até o outro morto. Antes de adentrar à sala, olhei para meus parentes e vi quando Maria me encarava balançando a cabeça em negativa. Não consegui me controlar e entrei.

Ao me aproximar do caixão descobri que era um senhorzinho. Um SENHORZINHO! Quem deixa um senhorzinho sozinho assim? Eu só conseguia pensar no quanto ser abandonado era triste. No quanto não ter amigos era horrível. Fiquei revoltada por deixarem ele ali naquela situação. Na minha cabeça, o espírito daquele homem estava lá, de pé ao lado do caixão, sentindo-se sozinho, decepcionado por não haver uma alma viva pra se despedir dele, abandonado. Que tristeza é morrer e não ter uma só pessoa para prantear sua morte… Chorei.

Chorei por ele. Por minha avó.

Fiquei um pouco lá, fazendo companhia até que ouvi um outro barulho.

A porta no final do corredor abriu. Meu pescoço virou na mesma hora. Às vezes a curiosidade demasiada me causa problemas… Quando vi o que estava dentro do salão meus olhos se iluminaram!  Por pouco não soltei um gritinho. Coloquei a mão na boca para abafar qualquer ruído, pedi desculpas ao defunto do “3C” e disfarçadamente, caminhei para fora da salinha, como quem não quer querendo, olhando ao redor, fingindo que inspecionava o lugar. Parei entre a porta do “3C” e “4D”, olhando, num ângulo perfeito, para o corpo dentro do caixão onde dois funcionários o preparava para as despedidas.  

Você vai me achar uma louca, mas gosto de observar cadáveres. A morte é algo fascinante e que me faz refletir sobre diversas coisas. Olhar um corpo inerte me faz pensar sobre a efemeridade da vida, sobre as palavras que deixamos de dizer, sobre coisas sem importância que damos tanta importância. Sobre relacionamentos familiares, sobre como não somos nada e achamos que somos muito. A morte tem a sua beleza mórbida e eu fico feliz em poder dedicar um pouco de carinho à pessoas desconhecidas nos últimos momentos dela entre nós. Já imaginou como deve ser passar uma eternidade debaixo de sete palmos de terra? Melhor levar consigo a lembrança de que alguém te fez companhia e se importou com você… É por isso que eu sempre digo: não deixem o morto sozinho!

Sobre o velhinho do “3C”, quando estávamos levando o corpo de minha avó para ser enterrado, a família do moço chegou às gaitadas, como se estivessem indo para uma festa. Estavam felizes. Escolhi acreditar que o senhorzinho não queria choro no seu enterro. Deixei o homem aos cuidados de seus parentes, com um sentimento de satisfação. Afinal de contas, ele não estava mais sozinho.

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About The Author

Nerd, Geek, viciada em livros, youtuber, aspirante a jornalista, apaixonada por animais e nas horas vagas tenta ser engraçadinha.